sábado, 12 de setembro de 2009

Ações movidas contra igrejas: Quando a fé vai parar nos tribunais


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Elisangela Bello

Eles acreditaram em pessoas que se diziam iluminadas ou escolhidas por Deus para guiar uma comunidade inteira, mas se viram vítimas de abuso de poder por parte de quem esperavam ter apoio e orientação espiritual. Como um casamento que termina, a relação fraterna e até íntima que muitos fiéis estabelecem com seus pastores se transforma, muitas vezes, em briga na Justiça, com pedidos de indenização e reparação de danos.

Numa pesquisa no site do Tribunal de Justiça do Estado, é possível encontrar mais de 30 ações movidas contra igrejas, sem contar processos que envolvem o poder público, ou seja, movidas por prefeituras. Entre elas, por exemplo, estão as movidas contra a igreja Tabernáculo Vitória, que há dois anos levou centenas de pessoas a venderem tudo que tinham para viverem juntas, numa sítio, em Ecoporanga, Norte do Estado, à espera da segunda vinda de Jesus Cristo.

Enquanto essas pessoas pedem reparação pelos bens que perderam acreditando que viveriam o céu aqui na Terra, o casal José Jorge Caetano e Nilzemar Pereira da Cruz, que frequenta a mesma igreja em Vila Independência, Cariacica, há 16 anos, decidiu ir à Justiça contra o pastor com quem conviviam há quase dois anos, por terem se sentido ofendidos, humilhados, em público. "Ele nos chamou de fofoqueiros diante da igreja lotada. Ficamos sem chão", conta a comerciante Nilzemar.

Medo
Assim como na situação contada pelo casal, a justificativa para a postura autoritária assumida por lideranças é baseada em trechos da bíblia e até pelo fato de o líder ser visto como um representante de Deus. "Outras pessoas já tiveram problema com ele, mas têm medo de falar, pois ele diz que ‘Deus vai cobrar’", relembra a mulher.

O medo citado por ela é o que faz com muitas histórias não apareçam entre os processos que envolvem igrejas e lideranças religiosas nas Varas Cíveis do Estado. Além do medo de discordar do líder e de expor a igreja, muitos também temem agir de forma contrária ao que diz a Bíblia ou a doutrina que era seguida, e preferem, como diz o pastor Solimar Lopes, presidente da Associação de Pastores e Líderes de Cariacica (Aspel), "sofrer o dano", ou seja ficar calado ou mesmo deixar a igreja.

O que outros fizeram em nome de Deus

Reverendo Moon
O líder coreano Reverendo Sun Myung Moon, nascido em 1920, criou a Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial – também conhecida como Igreja da Unificação –, depois de uma visão que ele disse ter tido aos 16 anos, onde Cristo teria dito que ele seria o homem que viera para "completar" sua obra. É também o autor do livro "Princípio Divino", que seria uma complementação da bíblia. Entre as afirmações polêmicas do líder está a que a missão de Jesus foi incompleta pelo fato de ele não ter constituído família. A igreja fundada por Moon ficou famosa pelos casamentos coletivos – só ele pode determinar quem casa com quem e quando devem ter sua primeira relação sexual

Jim Jones
Em 1978, outra seita, a Templo do Povo, levou centenas de pessoas ao suicídio em massa, em Jonestown, Guiana, sob o comando do Reverendo Jim Jones. Mais de 900 pessoas morreram após tomarem ponche com veneno, e o líder foi encontrado também morto, com um tiro na cabeça

Portão do Céu
Mais de 30 seguidores da seita Heaven’s Gate também cometeram suicídio em 1997, guiados por Marshall Applewhite, que dizia que eles estariam indo para o planeta Hale-Bopp

Pastor: "Fiel deve esperar justiça divina"
Em casos de conflitos com lideranças na igreja, mesmo que o líder tenha conduta questionável, não se deve ir à Justiça, para o presidente da Associação de Pastores e Líderes Evangélicos de Cariacica, pastor Solimar Lopes.

Nesses casos, para o pastor, é melhor confiar na justiça divina. "Se eles não forem crianças na fé, ou seja, se estão na igreja há muito tempo, é melhor sofrer o dano, como diz a bíblia, porque a nossa missão aqui não é brigar entre nós. Lamento que isso aconteça", diz.

Ele admite, no entanto, que há casos em que lideranças manipulam fiéis com seu conhecimento para obter proveito próprio, mas também lembra que pessoas de fé ingênua também se deixam manipular. O pastor lembra que igrejas mais antigas têm meios para corrigir lideranças, com códigos de ética e conselhos.

Para o presidente da Associação de Pastores da Grande Vitória, Enoque de Castro, porém, um pastor nunca pode expor os fiéis a ponto de causar constrangimento. "Isso é crime. O papel do pastor, a Bíblia também diz, não é ter domínio sobre a igreja, mas servir".

Luta na Justiça

Marina Dias da Silva - Dona de casa e ex-salgadeira

"Não se pode endeusar alguém tão pecador quanto você"

Elisangela Bello

Quase 10 anos após ter entrado com uma ação contra a igreja que frequentou durante seis anos, por causa de uma agressão sofrida durante um culto – ela teve o braço quebrado sob a alegação de que estava possuída pelo demônio –, Marina Dias da Silva hoje recebe uma pensão vitalícia e aguarda o restante da indenização que a Justiça obrigou a igreja a pagar. Apesar da decepção em relação ao antigo pastor e à igreja, ela conta que voltou a frequentar outra igreja e que até perdoou o agressor.

Depois do que aconteceu você voltou a alguma igreja?
No começo me revoltei muito, porque estava na igreja há 6 anos. Depois do acidente fui tratada como se não fosse nem membro. Meu esposo continua lá, mas diz que está por causa de Deus. Já avisei a ele que dízimo e oferta tudo bem, mas que não faça nada além disso. Eu passei a frequentar a Assembleia de Deus. Minha fé continua. Lendo a Bíblia é que você descobre que não pode endeusar uma pessoa que é tão pecadora quanto você.

Antes você tinha uma boa relação com ele?
Hoje fico pensando e acho que o acidente pode ter relação com o fato de eu ter contado ao bispo o que ele fez comigo. Até então, eu era Marina, obreira do Senhor. Mas depois que contei, ele ficou diferente.

O que aconteceu?
Ele levou um casal obreiro na minha casa, que iria se casar, e encomendou dois mil salgados. No dia, eles não vieram buscar. Liguei para ele, contei que teria prejuízo, perguntei sobre quem iria pagar os salgados. Ele garantiu que iria falar com o casal, mas isso nunca aconteceu. Cobrei uns dois meses, porque tinha contas a pagar, gastei para fazer os salgados, mas nada. Levei o caso ao bispo e quando estava contando ele chegou e perguntou se o estava desobedecendo. O bispo disse que o casal havia se mudado para Minas e que não ia voltar.

E no dia do acidente?
Era dia de culto da família, fui para pedir pelo meu filho, que tinha problemas no casamento. Ele falava bem, tinha uma pregação bonita. Comecei a chorar, pensando no meu filho, e ele veio para o meu lado, irado, dizendo que eu estava com o diabo. Bateu meu braço na cruz com tanta força, que me urinei de dor. Tive fratura exposta. Fui para o hospital e ele foi junto, com a esposa. Nem pude operar na hora, o osso esfarelou. E ele ainda veio falar "viu o que o diabo fez com você?"

Depois, você teve apoio dos outros membros?
Todos que frequentavam minha casa sumiram. No culto tinha umas 150 pessoas. Foi difícil conseguir três testemunhas. Até meu casamento, que estava marcado na igreja, foi cancelado depois que entrei com a ação judicial.

Qual lição ficou de tudo?
Não se deve seguir tudo que se ouve. Fiquei mais atenta.

Você o perdoou?
Já o perdoei. Sou um pouco nervosa, mas nunca fui de guardar rancor no meu coração. O que aconteceu foi falta de Deus, de sabedoria.

9 processos contra o Tabernáculo
Prova recente do poder que um líder religioso pode exercer sobre uma comunidade inteira foi a sequência de fatos envolvendo a seita Tabernáculo Vitória e o pastor Inereu Lopes.

Em torno da ideia de salvação propaganda pela seita liderada pelo pastor, centenas de fiéis se juntaram num mesmo endereço em Santo Antônio, Vitória, em 2007. Depois, eles venderam seus bens e doaram à igreja sob a convicção de que deveriam esperar pela volta de Cristo num sítio, em Ecoporanga, Norte do Estado, onde a comunidade chamada Recanto das Águias vive dividindo tudo igualmente.

O sonho, no entanto, parece estar se desfazendo aos poucos. Em maio deste ano, a comunidade foi multada pela segunda vez por não ter atendido a determinações do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), que encontrou irregularidades nas obras da seita e danos ao meio ambiente na propriedade.

De março até agora, nove ações indenizatórias tramitam na Justiça contra o Tabernáculo, movidas por ex-fiéis e parentes decepcionados com a vida em comunidade e com o comportamento do líder. Procurado pela reportagem, o advogado dos ex-fiéis não foi autorizado por eles a dar entrevista.

Casal humilhado diante de igreja
"Naquele dia, cheguei a dirigir o culto normalmente e pedi que todos ficassem de pé para receber o pastor. Ele chegou, e depois perguntou se a igreja queria conhecer os maiores fofoqueiros da comunidade. Todos ficaram esperando. Foi quando ele falou nossos nomes e começou a nos ofender em público. Não tive reação."

A situação, relatada pelo comerciante José Jorge Caetano, se deu em um culto da igreja que ele e a mulher, Nilzemar Pereira da Cruz, frequentam.

Eles alegam que não sabem até o hoje o motivo que levou o líder a acusá-los em público, e que tentaram resolver a situação recorrendo a instâncias superiores da igreja, mas não conseguiram. "Ligamos para os superiores dele para falar que fomos caluniados e humilhados, mas nada fizeram. Não merecíamos isso, somos a quarta geração da mesma família na igreja", argumenta Nilzemar.

Antes do fato, segundo Nilzemar, o casal havia pedido ao pastor para ser liberado de dar o dízimo, por estar passando por uma crise financeira, e ele teria concordado. Mas, no momento em que falou dos dois na pregação, teria mencionado o fato de eles não estarem contribuindo.

Além de testemunhas que comprovassem a história, o casal ofendido levou uma lista de assinaturas para a audiência de conciliação. "O pastor admitiu que se excedeu, mas não fizemos acordo. Só quis conversar depois que falamos da ação", diz o comerciante. Procurado, o pastor disse que só falaria sobre o fato após ser orientado pelo seu advogado.

Análise

Crise de lideranças
Gerson Abarca - Psicólogo e psicoterapeuta

Essa busca pela religião e o apego a uma liderança são características do ser humano. Não é algo ligado a classe social, escolaridade. Vem da necessidade de encontrar respostas para limites humanos, próprios da existência. A importância que os líderes religiosos têm no Brasil também pode estar ligada ao fato de o país ter uma enorme desigualdade social e viver uma crise de lideranças, na política, nas artes, na cultura. Isso cria um vazio. A questão do abuso é favorecida quando a igreja não tem conselho, estrutura que regule a atuação do líder. Muitas vezes, ele é o próprio fundador. Por outro lado, religião é parecida com paixão. Está ligada a questões não-racionalizáveis. Não se pode também demonizar todas as expressões religiosas. Mesmo as comunidades de vida, muito valorizadas num período da história e que agora voltam com força tanto no catolicismo quanto no meio evangélico. Tem gente séria em muitas religiões, responsáveis por muitos projetos sociais sérios. É preciso observar ainda é se a pessoa está bem consigo. Muitas vezes, está tão fragilizada que se torna alvo fácil.

Fonte: A Gazeta

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